quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Há uma "pedra" em nossas vidas!...


A Chegada da Pedra ( festa íntima em nossos corações!)

Hoje de manhã, quando saí apressada para o trabalho, tive um olhar diferente para a pedra que há quase um ano está na calçada de minha residência...

Muitas ausências povoaram minha manhã cinzenta, que logo ficou iluminada com doces lembranças!

Foi aí que resolvi partilhar com vocês um evento muito íntimo: " A festa da Pedra".
Ele aconteceu há quase um ano, para celebrar a chegada da pedra em um novo contexto, pois a nossa pedra não "chora sozinha no mesmo lugar". Eu a conheci na fazenda Bairro Alto, onde passei minha infância. Depois, com a morte de meu tio avô, ela veio para o sítio onde morávamos e aí permaneceu por muitos anos...meu pai se foi. Mais tarde, a doença obrigou minha mãe a vender o sítio e vir para a cidade. A pedra ficou para trás, mas minha mãe mandou construir um suporte para ela na calçada de sua casa. A pedra grande e pesada ficou aguardando a mudança...
Minha mãe se foi também...

Resgatei a pedra e tornei-me sua guardiã. No início do ano, reuní a familia  para celebrarmos
a beleza do encontro!...

Segue a mensagem que proferi .  Rimos, choramos, trocamos carícias e redescobrimos a beleza de celebrar a liturgia da VIDA !...
Foi Bom demais!

Mensagem
É bom estarmos juntos celebrando o milagre do encontro, atualizando relações de afeto e construindo fraternidade...

O amor de Deus nos permeia e celebramos a vida que se perpetua através de sucessivas gerações!...

Nesse ritual humano – divino, o tempo se dissolve, o passado se impõe valorizando as emoções presentes e pincelando de esperança o futuro. Eis a liturgia da Vida!...

Fazer memória é tão importante quanto fazer História! O passado não deixa de valer nunca, porque o que passou nos ensina lições preciosas...

Hoje é um dia especial para nós. Uma simples referência material evoca lembranças e faz aflorar fatos distantes, qual elos familiares, formando uma cadeia invisível de força, saudade e fé!...

Não estamos aqui homenageando ou cultuando uma simples pedra que vem servindo de ponto de encontro para pessoas de diferentes gerações! Nosso gesto presente transcende o visível e o palpável...

Aqui estamos celebrando, fazendo memória da trajetória de um povo, de uma família. Nosso encontro é intimo e sublime, pois aqui compartilhamos emoções autênticas!

Sabemos que o momento presente é onde a vida acontece! Vivemos, pois, um momento pleno. Estamos fazendo produtivo o nosso tempo livre, acariciando lembranças que são doces histórias...

Estamos felizes, uma vez que estamos indo de encontro às nossas verdades existenciais, sem esquecer nossas raízes...

Nós, seres humanos, somos potencialmente infinitos e não podemos perder essa ligação de amor que nos faz eternos!...

Não sabemos exatamente como tudo começou, mas podemos dizer que mãos escravas, há mais de 120 anos, ergueram essa pedra, obra- prima da natureza, do leito de um rio e colocaram-na em nossos caminhos, através de nossos antepassados. Formou-se uma corrente de vida! Aconteceu uma sublime metamorfose: A pedra fria e imóvel ganhou sentido, fez-se referência vital e ganhou um valor sentimental incalculável!...

A pedra, por sua natureza, resistiu ao tempo e aqui está a testemunhar conversas, juras de amor, risos, fofocas, desabafos... numa cumplicidade silenciosa...

Nem mesmo os sábios e/ou os poetas saberiam traduzir, à exaustão, toda a grandeza histórica e sentimental que essa pedra representa...

Nesse momento, o passado, o presente e o futuro se fundem no milagre da vida que se desenrola no tempo e se faz família!...

Certamente muitos aqui presentes podem ouvir vozes amigas e até sentir as carícias de um tempo que se foi. Podemos também antever o futuro que está sendo gestado, ou até mesmo aquele que ainda não foi concebido, mas será!

É o grande ciclo da vida que aponta para o infinito, embora pareça tão transitória e efêmera.

Através da memória, podemos juntar fragmentos de vida, que colados, qual mosaico vivo, evidenciam a Inteireza da Existência: estamos ligados uns aos outros por laços fraternos e a vida de cada um de nós, apesar de intransferível e única, não pode florescer sozinha!...

Essa pedra, minha gente, tem história, tem energia vital, tem passado, tem presente e futuro... Ela é a marca forte de uma família que soube pisar com fé as pedras do caminho e aqui está celebrando uma história feliz!...

Essa pedra já acolheu boiadeiros, agricultores, andarilhos, comerciantes, trabalhadores rurais, namorados, contadores de histórias, tocadores de viola, repentistas, caçadores, compadres, bordadeiras e muito mais...

À luz do sol, foi palco para brincadeiras de crianças e sob as carícias da lua presenciou diferentes conversas e ouviu segredos que continuará guardando para sempre em sua discreta natureza de pedra...

Se ela falasse, ficaríamos surpresos com seus relatos!...

Lá na Fazenda Bairro Alto, quantas vezes, eu dormi no colo de alguém, sobre essa mesma pedra onde minha avó ainda menina também ouviu muitas histórias e canções de ninar...

O Dé, a Vozinha, Vovó e vovô Antônio... e mesmo o vô Pedro Epifânio quantas vezes devem ter sentado nessa pedra para jogar conversa fora, rir, contar piadas e histórias, numa época em que a televisão não interferia na intimidade dos encontros...

O Dico, o Seu Lindolfo e todos os trabalhadores da fazenda descansavam nessa pedra no final do dia, buscando renovar energias e esperanças!...

Lembro o Marcelo e sua risada inconfundível quando o meu pai contava uma história engraçada, enquanto minha mãe pregava botões nas peças que costurara naquele dia...

Eu, meus irmãos e meus primos brincamos incontáveis vezes sobre essa mesma pedra: desenhamos,colorimos, fizemos tarefas escolares ou simplesmente corremos sobre ela com intimidade de velhos e bons amigos. Anos depois, minhas filhas repetiram nossos gestos, quando a pedra já estava no Sitio da Vovó Raimunda...

O tempo passou, os espaços mudaram, muitas pessoas queridas já não estão no meio de nós e certamente nos espiam, com um sorriso de aprovação, duma dimensão eterna...

E hoje aqui estamos relembrando uma trajetória feliz, celebrando o milagre do encontro, mas nem por isso a vida se repete! Ela segue o seu curso rumo a um futuro que não pertence a nós!...

É preciso celebrar a vida como um renascer perpétuo, um renovar a cada dia, que exige de nós consciência e cuidado. A convivência humana nos enriquece e hoje somos melhores que ontem e podemos dizer que fizemos historia... a nossa História!

E que a nossa História, ó PAI, seja orientada pelo seu plano de amor, agora e sempre!...

A magia do encontro se faz prece e ouso convidá-los a dizer de mãos dadas: PAI NOSSO...

Fazei, Senhor que essa pedra continue sendo referencial de unidade e ponto de encontro, para que possamos celebrar sempre o desenrolar da vida na transitoriedade do tempo...

Não podemos trazer o passado de volta, mas podemos povoar o presente com a doce lembrança das pessoas que amamos! Posso ver minha mãe sorrindo feliz nesse encontro e dizendo: Finalmente minha pedra está aqui!...Está sim, minha mãe, e cuidaremos dela com muito carinho. Peça a Deus que ela seja sempre um ponto de encontros lúcidos e saudáveis, resgatando bonitas historias...

Sabemos que somos seres humanos comuns, heróis do cotidiano...

o nosso diferencial está na graça de podermos celebrar o milagre do existir no convívio de amigos e familiares. Isso nos faz iluminados, mais que especiais e situa-nos num espaço privilegiado, no tempo certo, no momento exato de esquecer mágoas e diferenças e de pensar apenas na fraternidade que nos une e que ora nos reúne!...

Que Deus continue protegendo nossas vidas!....

Amém!

Bernadete M. L. Valadares

Felixlândia,27 de janeiro de 2010.

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